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| Foto: Divulgação/MB |
Imagine um caminhão lançado no fim dos anos 1950…
Um caminhão que rodou milhões de quilômetros pelas estradas brasileiras.
Um caminhão que transportou alimentos, madeira, materiais de construção e ajudou a mover a economia do país por décadas.
Agora vem a parte mais curiosa dessa história.
Mesmo tendo sido lançado há mais de 60 anos, esse caminhão ainda é fabricado até hoje.
Mas não no Brasil.
Ele continua sendo produzido no Irã, em uma versão muito parecida com a original.
Como isso é possível?
Como um projeto tão antigo conseguiu sobreviver por tantas décadas?
E por que o lendário Mercedes-Benz 1113 se tornou um dos caminhões mais respeitados da história?
Hoje você vai entender toda a trajetória dessa máquina que marcou gerações de caminhoneiros.
Capítulo 1 – O caminhão que se recusou a desaparecer
Esse caminhão continua saindo de uma linha de produção no Irã, em uma versão muito parecida com o modelo clássico.
Como isso é possível?
Como um projeto criado no final da década de 1950 conseguiu sobreviver por tantas décadas?
Por que ele foi tão importante para o Brasil?
E como exatamente o lendário Mercedes-Benz L-1113 acabou se tornando um dos caminhões mais duradouros da história?
Para entender isso, precisamos voltar no tempo.
2. O Brasil que precisava de caminhões
Nos anos 1950 e 60, o Brasil estava passando por uma grande transformação.
Durante muito tempo, o transporte de cargas no país dependia principalmente de ferrovias e navegação fluvial. Mas essa realidade começou a mudar rapidamente com os investimentos em infraestrutura rodoviária. A industrialização do Brasil começou ainda no começo da década de 1930, após a crise de 1929, mas se intensificou na década de 1940, no governo Getúlio Vargas, com a criação das estatais CSN (1941), Vale do Rio Doce (1942) e a FNM (1943).
O presidente Juscelino Kubitschek, que governou o país entre 1956 e 1960, criou em 1956 o GEIA (Grupo Executivo da Indústria Automobilística), o pontapé inicial para a nossa indústria automotiva como conhecemos hoje.
Seu governo ficou marcado por um ambicioso programa de desenvolvimento chamado Plano de Metas de Juscelino Kubitschek, que tinha como objetivo acelerar a industrialização do país, apelidado por Juscelino como "50 anos em 5".
Dentro desse plano, as rodovias passaram a receber investimentos gigantescos.
Novas estradas começaram a ligar regiões que antes eram praticamente isoladas.
E com isso surgiu uma necessidade enorme de transporte rodoviário. A nova capital federal Brasília foi construída no centro do Brasil.
O Brasil precisava de caminhões.
Muitos caminhões.
Foi exatamente nesse momento que a Mercedes-Benz decidiu apostar no mercado brasileiro.
Em 1956, a empresa inaugurou sua primeira grande fábrica nacional em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, berço da indústria automotiva no Brasil, no estado de São Paulo.
Ali começaria a produção de caminhões que logo se tornariam parte da história do país. O primeiro caminhão foi o bicudo L312, que mais tarde ficaria conhecido por "torpedo". Em 1958, veio o LP/LPK-321 e LP/LPK/LPS-331, de cabine avançada, também conhecido como "cara chata".
3. O nascimento do Mercedes 1113
Em 1964 surgiu um caminhão que mudaria completamente o transporte rodoviário brasileiro. Lançado no Salão do Automóvel daquele ano, mantinha a tradição de caminhões movidos a diesel da marca, em uma época que a maioria dos caminhões eram movidos a gasolina. Ford, Chevrolet e International vendiam caminhões movidos a gasolina, enquanto Mercedes-Benz, FNM e Scania só vendiam caminhões movidos a diesel, desde o começo.
Era o Mercedes-Benz L-1111, com 3 opções de entre-eixos: L1111 (Lastwagen, caminhão em alemão, ou carroceria aberta), LK1111 (Kipper ou caçamba basculante) e LS1111 (Sattelschlepper ou reboque, cavalo mecânico). Em 1965, chega os LA, o LAK e o LAS-1111 com tração 4×4.
Esse modelo fazia parte de uma linha de caminhões com cabine convencional e capô longo, um formato muito comum na época a linha AGL, lançada na Alemanha em 1959.
Esse tipo de construção tinha algumas vantagens importantes.
Facilitava o acesso ao motor, tornando a manutenção muito mais simples, além de melhorar a refrigeração do motor, acabava com o problema do calor dentro da cabine dos LP321 e deixava a estrutura do caminhão mais resistente para enfrentar estradas ruins. Com o eixo mais à frente, era mais confortável ao motorista e demais ocupantes da cabine.
Era equipado com o motor Mercedes-Benz OM321, mesmo motor usado no LP321: Um 6 cilindros em linha 5.1 litros com injeção indireta e aspiração natural, com 110 cv de potência a 2.800 rpm. O 1111 foi fabricado entre 1964 e 1970, com 39 mil unidades produzidas.
Em 1969, a Mercedes-Benz apresenta o 1113, bem mais moderno que o 1111. Tinha o mesmo design do 1111.
Mas o que realmente fez o 1113 se destacar foi o seu conjunto mecânico.
Debaixo do capô estava o lendário motor diesel Mercedes-Benz OM352.
Esse motor possuía seis cilindros em linha, 5,7 litros de cilindrada, aspiração natural e injeção direta com 130 cavalos de potência.
Hoje esses números podem parecer modestos, mas na década de 1970 isso representava um caminhão extremamente eficiente para transporte de carga média.
Só que o grande segredo do OM352 não era apenas potência.
Era durabilidade.
Esse motor ficou famoso por sua resistência absurda. Muitos caminhões ultrapassavam facilmente um milhão de quilômetros rodados sem precisar de grandes intervenções mecânicas. E isso fez o 1113 rapidamente conquistar a confiança dos caminhoneiros.
4. O caminhão que dominou as estradas
Durante as décadas de 1960, 70 e 80, o Mercedes 1113 e o restante da linha AGL virou praticamente um símbolo das estradas brasileiras.
Ele estava em todos os lugares.
Transportando alimentos das capitais para as cidades do interior.
Levando madeira das regiões de floresta para as cidades.
Carregando materiais para construção de casas, estradas e prédios.
Era comum ver esse caminhão trabalhando em:
transportadoras,
fazendas,
empresas de mudança,
cooperativas agrícolas
e pequenas comércios familiares.
O sucesso do 1113 tinha três motivos principais.
O primeiro era a robustez.
As estradas brasileiras da época eram extremamente desafiadoras. Buracos, lama, poeira e longas subidas eram parte da rotina de qualquer caminhoneiro.
O 1113 enfrentava tudo isso com impressionante resistência.
O segundo motivo era a simplicidade mecânica.
O caminhão tinha uma mecânica relativamente simples e fácil de entender. Em muitos casos, o próprio motorista conseguia resolver pequenos problemas na beira da estrada.
Isso era essencial em uma época em que oficinas eram raras fora das grandes cidades.
O terceiro motivo era o custo de manutenção.
Como o caminhão vendeu milhares de unidades, as peças ficaram abundantes e relativamente baratas.
Esse conjunto transformou o 1113 em um verdadeiro parceiro de trabalho.
Não demorou para que os caminhoneiros brasileiros dessem ao modelo um apelido que se tornaria famoso:
O bruto.
5. A evolução dos caminhões Mercedes
Com o passar dos anos, a indústria de caminhões começou a evoluir.
Novos modelos começaram a surgir com mais potência, mais capacidade de carga e maior conforto para o motorista.
Esses caminhões traziam melhorias em diversos aspectos.
Motores mais fortes, cabines mais confortáveis e maior capacidade de transporte. O mesmo motor OM352 também passou a ser usado nos demais caminhões da linha AGL que foram lançados nos anos seguintes: os 4x2 1313 e 1513, os 6x2 2013 e 2213 e o traçado 6x4 2213. Também foi lançado o 1519, com motor OM355 de 5 cilindros e 192 cv.
No final dos anos 1970, foram lançados os 4x2 1316, 1516 e as opções truck 6x2 e 6x4 2216, equipados com o novo motor Mercedes-Benz OM325A, um motor turboalimentado com 156 cv de potência.
Em 1982, veio a primeira (e única) reestilização total, após 18 anos com poucas mudanças. Ganhou nova cabine com 4 faróis retangulares no lugar dos 2 faróis redondos e novo painel de instrumentos. Tecnicamente nada mudou.
Em 1986, a linha equipada com o motor OM352 não sofreu alterações, mas o motor OM352A ganhou alterações que elevaram a potência para 170 cv de potência.
Em 1987, as nomenclaturas mudaram, foi uma manobra da Mercedes-Benz para aumentar os preços dos caminhões, já que o governo Sarney impôs o congelamento de preços em tempos de hiperinflação. O 1113 passou a se chamar 1114, o 1513 passou a se chamar 1514, o 1517 passou a se chamar 1518, e assim por diante. A marca alemã aumentou o último número na nomenclatura, mas a mecânica continuava a mesma.
Em 1989, a linha HPN foi lançada para substituir os AGL, que saíram de linha no Brasil em 1990, depois de mais de 200 mil unidades vendidas e de ganhar o apelido de "Fusca dos caminhões".
Mas isso não significou o fim da história.
Na verdade, foi apenas o começo de um capítulo inesperado.
6. O destino inesperado: o Irã
Enquanto o 1113 desaparecia das linhas de produção brasileiras, ele continuava vivo em outro lugar do mundo.
No Irã.
Desde os anos 1960, a Mercedes-Benz licenciou a produção dos seus caminhões em diferentes países.
Um desses parceiros foi a empresa Iran Khodro Diesel, uma das maiores fabricantes de veículos comerciais do Oriente Médio, que começou a produzir a linha AGL em 1979.
Essa empresa passou a produzir caminhões baseados em projetos clássicos da Mercedes sob licença.
Entre eles estava justamente o projeto derivado do 1113.
Atualmente são produzidos os modelos LK1924 e LK2624, com rodas raiadas e chassi vermelho, igual aos modelos europeus da década de 1970 e todos na cor laranja.
O motor é o OM355LA de 6 cilindros, 11,5 litros, turbo e intercooler, com 280 cv de potência e 107 kgfm de torque.
A cabine traz painel mais moderno, ar-condicionado, e opcionalmente pode vir com rádio Bluetooth.
Mas por que continuar fabricando um caminhão tão antigo?
A resposta está na realidade de muitos mercados.
Em diversos países, caminhões modernos podem ser caros demais para comprar e manter.
Motores cheios de eletrônica, sistemas complexos e manutenção especializada aumentam muito os custos.
Por isso, caminhões simples e extremamente robustos continuam sendo muito valorizados.
E o projeto do 1113 se encaixava perfeitamente nessa necessidade.
7. Como ele ainda existe hoje
No Irã, os caminhões derivados do projeto original passaram por algumas atualizações ao longo dos anos.
Mesmo assim, a essência do caminhão continua praticamente a mesma.
Cabine simples.
Estrutura robusta.
Mecânica resistente.
Facilidade de manutenção.
Ou seja, ele continua sendo exatamente aquilo que sempre foi.
Uma ferramenta de trabalho confiável.
O Mercedes-Benz L-1113 pode ter sido criado há mais de meio século.
Mas sua história mostra algo raro na indústria automotiva.
Alguns projetos são tão bem feitos que conseguem atravessar gerações.
No Brasil, ele ajudou a transportar riquezas, construir cidades e conectar regiões.
E mesmo décadas depois de sair de linha por aqui, sua essência continua viva em outros lugares do mundo.
Um caminhão criado nos anos 1960.
Que se recusou a desaparecer.
E que até hoje continua sendo lembrado como uma verdadeira lenda das estradas brasileiras.
